segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Guerra política no São Paulo divide clube e gera insegurança no Conselho

Troca de acusações entre Aidar e Juvenal, contrato com namorada do presidente e cobrança da Puma deixam diretores e conselheiros assustados. Mas o futebol vai bem



Espanto, insegurança, “pé atrás”. São expressões citadas por conselheiros e diretores do São Paulo para descrever o ambiente político após a reunião da última segunda-feira, na qual veio à tona o contrato com a empresa de Cinira Maturana, namorada do presidente Carlos Miguel Aidar, e que desencadeou nova série de acusações entre ele e o antecessor, Juvenal Juvêncio.
Indagado por opositores, Aidar admitiu contrato que dá à Cinira 20% de comissão sobre qualquer negócio que ela leve ao São Paulo. Na mesma reunião, Juvenal discursou em tom enfático. Proibiu o atual presidente de falar seu nome e jogou em sua cara o apoio na eleição.
Ambos os protagonistas da guerra política têm dito que possuem apoio maciço. Aidar gaba-se de ter acabado com a oposição. Afirma que ela se resume a Juvenal e três aliados: Roberto Natel, ex-vice-presidente, José Francisco Manssur, assessor especial do antigo presidente, e Rui Stefanelli, sobrinho de Juvenal e diretor adjunto de planejamento de sua gestão.
- Cabem no banco da frente de uma Kombi - disse Aidar.
Por outro lado, Juvenal Juvêncio conta com o prestígio acumulado no Conselho em seus oito anos à frente do clube. Acredita que sua influência sobre os cartolas são-paulinos vai colocar o rival na berlinda, e já anunciou que não dará sossego ao sucessor.
Porém, nenhum deles está coberto de razão. A avaliação de pessoas que vivem o dia-a-dia do clube é de que cada um, Aidar e Juvenal, têm alguns poucos aliados leais, enquanto a imensa maioria permanece à espreita, apenas observando a briga e tentando avaliar quem está com a razão. 
Pegou mal no Conselho o contrato do São Paulo com a TML, empresa de consultoria pertencente à Cinira Maturana. Alegam que se houvesse mesmo transparência, uma das bandeiras de Carlos Miguel Aidar, o compromisso teria sido anunciado no órgão tão logo foi assinado, ou seja, em maio. A maioria não gostou de ficar sabendo do documento por meio da reclamação dos aliados de Juvenal. O fato foi reprovado pelo presidente do Conselho, Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco, membro atuante do clube desde que era presidido por Juvenal.
Também incomoda o tom das críticas à gestão anterior. Aidar bate com força no que chama de “esquema” criado nas categorias de base e na situação financeira do clube. Chegou a dizer que os balanços anteriores eram maquiados. 
Como muitos diretores e quase todos os conselheiros conviveram próximos a Juvenal durante muitos anos, acusam o golpe. Dizem que o ex-presidente, até pela doença que teve recentemente (um câncer de próstata atualmente controlado), não poderia receber tantos ataques.
Sobre a situação financeira, embora reconheçam em Aidar o mérito de procurar equilibrar receitas e despesas, diretores e conselheiros denunciam um “exagero” do atual mandatário. Eles dizem que os balanços anteriores, que apontavam superávit, estavam corretos, e que a dívida bancária pode perfeitamente caminhar paralelamente a isso. Uma coisa não anula a outra.
Outro ponto considerado favorável a Carlos Miguel Aidar é a reestruturação na gestão. Eleito em abril, o presidente quer uma administração mais moderna, menos centralizadora e viciada, com mais profissionais atuando em cada uma das áreas. Os diretores reconhecem. Tanto que atenderam à convocação de Aidar e estiveram presentes na entrevista coletiva concedida por ele na última quarta-feira, em que ele voltou a atacar Juvenal e defendeu a relação profissional com a namorada.
Na ocasião, Aidar afirmou que esperaria Cinira voltar de viagem, algo que só acontecerá no início de janeiro, para discutir com ela a rescisão do contrato. A maioria dos conselheiros gostaria que isso fosse feito imediatamente.
Para encerrar a semana conturbada no Morumbi, a Puma, empresa alemã de fornecimento de material esportivo, revelou um acordo assinado no dia 28 de agosto para substituir a Penalty ao término do contrato com o São Paulo. A diretoria negou. Disse que tratava-se apenas de uma carta de intenção com um prazo para se transformar num contrato formal, o qual não foi cumprido.
Há, no Morumbi, a versão de que Aidar desistiu do negócio porque a Puma se negou a pagar a comissão de 20% à Cinira. A empresa, que citou a namorada do presidente em nota oficial como pessoa designada por ele para coordenar a transição com a atual fornecedora, se recusou a comentar o assunto.
FUTEBOL SE SALVA
Em meio ao tiroteio, sobram elogios a Ataíde Gil Guerreiro, vice-presidente de futebol, e ao desempenho do time desde que Carlos Miguel Aidar venceu a eleição. O dirigente é visto por todos os lados como pessoa ideal para impedir que a guerra política respingue na equipe, no CT da Barra Funda.
Famoso por seu pavio curto, Ataíde se recusa a tocar no assunto. De bom relacionamento tanto com Juvenal como com Aidar, diz que só se manifesta nas reuniões do Conselho. Contratações certeiras como as de Alan Kardec, Kaká e Michel Bastos, sem falar nos três reforços já garantidos para 2015 – Bruno, Carlinhos e Thiago Mendes –, também são exaltadas.
Ataíde não trabalha sozinho. Na busca por novos jogadores, destaca-se o trabalho do gerente executivo Gustavo Vieira de Oliveira. Diretores e conselheiros aprovam e também elogiam o vice-presidente por dar tranquilidade a ele, ou seja, contornar seu relacionamento com Muricy Ramalho e, principalmente, deixá-lo fora da briga entre Aidar e Juvenal.

http://globoesporte.globo.com/futebol/times/sao-paulo/noticia/2014/12/guerra-politica-no-sao-paulo-divide-clube-e-gera-inseguranca-no-conselho.html

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